A vida de um jornal tem história e estórias. Preserva a memória dos acontecimentos e da inserção das comunidades pela palavra e pela acção. Sujeito nos seus primeiros 16 anos à censura oficial e à vigilância da polícia política, o Notícias da Amadora guardou não só a palavra impressa mas igualmente a memória dos discursos não publicados.
Embora vividos por vezes de forma dramática, esses primeiros anos foram determinantes para estruturar o seu projecto editorial. A sua influência transcendeu o espaço regional e a sua cultura jornalística consubstanciou-se num processo experimentalista e inovador, que lhe conferiu identidade.
Orlando Gonçalves, que dirigiu o Notícias da Amadora durante 31 anos, entre 1963 e 1994, foi o impulsionador das diferentes equipas redactoriais. Mas foi igualmente quem proporcionou a unidade de uma experiência exaltante e criadora.
A independência, a isenção, o rigor e a procura da verdade constituíam princípios pelos quais se regia o jornal. Todavia, a independência não significava neutralidade. E a verdade, tal como a enunciou Orlando Gonçalves, era «uma verdade de consenso, em torno de um projecto editorial» (1).
«O Notícias da Amadora deu um importantíssimo contributo () E legou um exemplo de coragem que é importante seguir. Os jornalistas não podem vergar nem ao poder económico nem ao poder político. A sua independência é necessária à democracia.» (2), disse Jorge Sampaio.
Mas outro Presidente da República, Mário Soares, pronunciou-se sobre o Notícias da Amadora. «Sigo com muita simpatia o esforço desse jornal, que se iniciou em condições muito difíceis quando existia a censura e todas as formas de repressão, que manteve com muita galhardia a defesa dos princípios democráticos» (3)

UMA ESCOLA
O Notícias da Amadora foi uma escola de cidadania. Soube fazer a síntese entre um jornalismo interventivo e combatente e as premissas educacionais da imprensa periódica, tal como as definiu a UNESCO nos anos 60. Considerava os media como «autênticas forças de produção — produtores de ideias; de criações originais e de educação no mais amplo sentido da palavra».
A luta pelas liberdades fundamentais constituiu uma matéria permanente na aprendizagem feita na redacção do jornal, mas também representou a sua informação substantiva. Essa determinação fez do Notícias da Amadora uma referência. O jornal «mais combativo e o que mais longe foi na sua luta contra o regime», como o disse Orlando Gonçalves.
O jornal foi também uma escola de jornalismo. Uma redacção por onde passaram «centenas de jornalistas e colaboradores de imprensa, entre os mais qualificados, e os escritores de maior nomeada do país».
Fundado em 25 de Outubro de 1958, o Notícias da Amadora foi nos primeiros anos um jornal iminentemente local, tanto em expansão como na cobertura noticiosa. Nesse período, foi dirigido por António de Jesus (1958-1959), A. Conceição e Silva (1960-1961), Domiciano P. Valente (1961) e Domingos Janeiro (1961-1963).
Quando Orlando Gonçalves assumiu a sua direcção em 26 de Junho de 1963, a sua prioridade foi conferir-lhe expansão regional, como jornal dos concelhos de Oeiras e Sintra. Todavia, atribuiu uma natureza própria à sua expressão regional.
Qualquer assunto e problema, nacional ou internacional, interessava ao jornal e a quem o lia, pelo impacto que aí produzia. Mas também porque nenhuma «terra é uma ilha e não pode viver isolada do mundo que a circunda e do país em que se insere».
O jornal ganhou novos assinantes e aumentou a sua divulgação. Com novas colaborações, estruturou uma política editorial própria e assumiu o compromisso de ser «porta-voz dos anseios justos das populações trabalhadoras da zona que servimos».

A FASE MAIS EMPOLGANTE
Este segundo período decorre até 1969, ano em que se realizam eleições para a Assembleia Nacional. Teve então início a fase que Orlando Gonçalves considerou a mais empolgante. A partir de 1970, o Notícias da Amadora passou a ter expansão nacional.
«Servir princípios de verdade e justiça (verdade e justiça que serão as nossas) e não servir homens ou interesses de grupos», constituiu então o seu primado. Aumentaram as perseguições da polícia política e da censura e pressões de diversa índole, inclusive a tentativa de compra do título.
Em 18 de Abril de 1974, a PIDE/DGS passou buscas à redacção e tipografia do jornal, onde danificou máquinas, apreendeu diverso material e prendeu Orlando Gonçalves e Sérgio Ribeiro. O seu intuito era calar de vez o jornal. Mas, em vez disso, a Revolução dos Cravos destronou a ditadura e instaurou as liberdades. Com as alterações profundas que ocorreram na sociedade portuguesa, os anos subsquentes constituíram para o Notícias da Amadora um período de incerteza. O jornal perdeu leitores e aumentaram as dificuldades económicas e financeiras. Era necessário reformular o projecto e regressar ao seu espaço original.
Em 1976 passou a quinzenário e em 1983 optou por encerrar as oficinas gráficas. Apesar disso, manteve a determinação de «seguir em frente». Orlando Gonçalves considerava que se mantinham os pressupostos que justificavam a existência do jornal.
Na década de 80, o Notícias da Amadora reencontrou o seu espaço como jornal regional na Grande Lisboa. Todavia, a situação da imprensa regional agrava-se em consequência da perda de receitas. A expansão do audiovisual nos anos 90, a criação de grupos multimédia, a concentração de empresas no sector e a centralização da publicidade e da distribuição tornam mais difícil a actividade da imprensa regional em Lisboa.
Os primeiros 16 anos do Notícias da Amadora foram difíceis e exigiram uma grande firmeza para enfrentar todas as adversidades, até que se alcançasse a liberdade em 25 de Abril de 1974. Mas igualmente difíceis foram os 16 anos seguintes.
Embora as condições não se tenham alterado, os anos 90 vieram demonstrar a necessidade da existência de jornais regionais. Perante uma concentração crescente dos meios de comunicação, com a consequente perda de pluralismo, e simultaneamente com a dominância do processo da globalização, a imprensa regional surge como um instrumento identitário regional e como uma alternativa comunicacional de proximidade.

VALORIZAR A COMUNICAÇÃO REGIONAL
O Notícias da Amadora não pretende negar a evolução nem as características da sua inserção no espaço regional. Quer, pelo contrário, acentuar a importância das trocas simbólicas locais e valorizar a comunicação a nível regional, como factor indispensável à contextualização do conhecimento sobre a realidade.
Orlando Gonçalves faleceu em 1994, numa fase em que este processo de afirmação do jornal se encontrava em curso. O património por ele legado permitiu prosseguir, com a adesão de novos jornalistas e colaboradores, um processo sempre criador e que se quer distintivo no universo da imprensa regional.
Mau grado o sistema económico desfavorável para as pequenas e micro empresas e o ambiente ideológico adverso à afirmação da autonomia e independência, O Notícias da Amadora entrou no século XXI determinado em ocupar um espaço e a desempenhar o papel que dele esperam quem nos lê.
O jornal reitera a prática de um jornalismo cívico, que se baseie no seu próprio projecto editorial e no modelo histórico do jornalismo ideológico que emergiu com os primeiros propagandistas da República. Um jornalismo de causas, baseado num sistema de valores democráticos.
O Notícias da Amadora assume a sua responsabilidade social e procurará guiar-se por uma agenda mediática onde figurem os problemas, interesses e aspirações das comunidades. Defende uma ligação estreita entre o jornal e os seus leitores, ao mesmo tempo que procura ampliar a sua rede.
A presença da Regimprensa e do Notícias da Amadora na Internet é uma forma de projectar a imprensa regional e aceitar os desafios e as oportunidades de comunicação que se nos colocam. Contamos com quem nos visita neste sítio e esperamos que a sua leitura contribua para que se tornem assinantes da edição impressa do semanário Notícias da Amadora.