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Ed. de 2008-10-25
  Banda Desenhada



   

   

   

   

   

   

   

   

   

   

   

   
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Viver cultura - Artes
Banda Desenhada
FIBDA 2005 celebra o sonho


O sonho é o tema central da 16ª edição do Festival Internacional de Banda Desenhada da Amadora (FIBDA). O paralelo entre o sonho e a banda desenhada pode ser estabelecido a vários níveis.

Se se considerar o sonho como um evento que tem lugar num espaço da nossa mente, enquanto os nossos sentidos estão adormecidos ou distantes daquele evento, não estamos muito longe da experiência da leitura da BD, onde o escapismo é mais acentuado do que noutras formas de linguagem.
Tal como o sonho, a banda desenhada é interpretada subjectivamente pelo leitor, e aplicável à realidade de cada um. Assim se diz que cada leitor define o ritmo da banda desenhada que lê, e preenche os espaços entre as vinhetas (ou quadradinhos) de uma forma única, que reflecte necessariamente a realidade desse leitor, definida a partir dos seus sentidos objectivos.
Não há duas leituras iguais de uma BD, assim como não há dois sonhos iguais.
Tal como a banda desenhada, o sonho desafia a objectividade da distinção entre passado, presente e futuro. O olhar do leitor detém-se na dupla página (do livro aberto), antes de se deter em cada vinheta, antecipando um futuro que não deixa de ser presente. E o leitor é livre de avançar ou voltar atrás na sua leitura. Também por aqui se reforça o carácter subjectivo da leitura da BD.
Na leitura da banda desenhada como no sonho, a vontade fica em “stand-by”. A participação do leitor parte de uma receptividade ou disponibilidade. Assim, como nos sonhos, a linguagem da BD faz-se de símbolos e representação (por vezes recorrendo ao exagero). Por outro lado, o leitor aceita com relativa facilidade a passagem para um plano de subjectividade: para além das representações, aceitam-se lógicas internas de subjectividade, que não têm lugar no “mundo real” — animais que falam, super-heróis que voam e têm poderes extraordinários, etc.
Tal como o sonho, a BD é um conjunto de símbolos usado num plano subjectivo, e susceptível de afectar ou impressionar a nossa realidade objectiva. Saber de que modo pode a banda desenhada corresponder a um plano elevado da dimensão humana, é uma questão que tem vindo a ser colocada por diversos teóricos. A resposta pode não estar ligada unicamente à BD — antes decorrendo da ligação aos domínios do sonho ou imaginação —, mas é significativa a forma única de ler BD, ligada simultaneamente à recepção da imagem e à percepção do texto, para chegar, num passo mais adiante, à participação.
O sonho como forma de afirmação individual será também uma das vertentes celebradas com o Festival deste ano.
Sandman, a personagem que Neil Gaiman celebrizou, e que já esteve em destaque no FIBDA 2004, e Little Nemo in Slumberland, a série de Winsor McCay que celebrará os seus cem anos no mês da inauguração do Festival da Amadora, deverão ser algumas das referências obrigatórias.
Mas também a banda desenhada portuguesa tem reservado um lugar muito especial para o sonho.
Apesar de não existir uma grande escola portuguesa de banda desenhada, e de cada autor trabalhar de forma completamente liberta e independente, há determinadas preocupações temáticas, gráficas ou narrativas que aparecem como traço comum em diversas obras produzidas nos últimos quinze anos, o período de tempo em que o FIBDA acompanhou a produção nacional. De tal forma, que quase se podem afirmar características do actual momento da banda desenhada portuguesa.
A presença do sonho é um desses traços comuns.
José Carlos Fernandes é um dos autores que mais tem levado a matéria do sonho à banda desenhada portuguesa. O sonho assegura uma presença fundamental em obras como “Um Catálogo de Sonhos”, “A Lâmina Fria da Lua”, “Coração de Arame” ou “Avaria”. Na singular cidade onde se desenvolve a série de “A Pior Banda do Mundo, os clientes do hotel Luxor sonham sonhos que não são os seus, e apresentam reclamações (vol. 1, págs. 30-31); o chefe dos correios confidencia a Simeon Lichenstein — que sofre de irrealidade crónica — que ele deverá ser o produto do sonho de alguém (1, 38-39); o Dr. Salomão Bettelheim dorme doze horas por noite, mas levanta-se psicologicamente exausto, pois passa as noites a sonhar que tem insónias (2, 40-41). O quarto volume da série, premiado em 2004 com o Troféu para o Melhor Argumento de Álbum Nacional, tem o sonho bem no centro da sua unidade temática: Filipe Goulass e Miguel Zyman, investigadores do Instituto Superior Hipnopédico, tentavam determinar a massa dos sonhos, e chegaram à enunciação da lei da conservação do sono (4, 8-9); esforços para obter mais valias do sono levam à discussão do conteúdo dos sonhos (4, 26-27); o arquivo onirográfico Khazar visava recolher e sistematizar os sonhos da humanidade (4, 32-33), e em 1953 desaparece toda a colecção de sonhos eróticos do arquivo (4, 34-35).
O FIBDA 2005 vem encerrar um ano em que o sonho da BD esteve presente sob a forma de encontro, exposição ou festival em diversos pontos do país onde a sua celebração era desconhecida.

PEDRO MOTA

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