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Ed. de 2008-10-25
  Banda Desenhada



   

   

   

   

   

   

   

   

   

   

   

   
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Viver cultura - Artes
Banda Desenhada
Reflexões sobre um inquérito


Considerando a banda desenhada, «em paralelo com o cinema, e a exemplo também do jazz, uma arte por excelência do século XX», o estudioso João Paulo Paiva Boléo propôs que passasse pela Amadora um levantamento de cem bandas desenhadas que marcaram aquele século. Depois de um seminário em 2002, no âmbito da 13ª edição do Festival Internacional de Banda Desenhada da Amadora, e que contou com alguns investigadores internacionais, o município está agora a convidar diversas pessoas nacionais e estrangeiras a participar no inquérito «100 BDs do Século XX».

A realização deste inquérito suscita desde logo duas questões: uma de oportunidade, e outra de relevância.
No que respeita à oportunidade, verifica-se que o levantamento será efectuado em 2004. Para mais, nos últimos anos foram publicadas obras susceptíveis de discutir uma presença entre as melhores, mais relevantes ou mais influentes 100 bandas desenhadas de todos os tempos. Até que ponto é posto em causa o critério orientador do século XX? Por outro lado, há vários casos de obras serializadas no século XX e editadas como um todo, num novo contexto revisto (e por vezes ampliado) já no século XXI. Que fazer?
Em termos de relevância, a polémica será ainda maior. É que, explica Paiva Boléo, «pretende-se, não dogmaticamente as 100 bandas desenhadas, mas a escolha de bandas desenhadas preferidas e/ou que cada um considera melhores e mais representativas, com subjectividade objectiva, privilegiando gosto e importância, influência e fascínio, incluindo obras injustamente esquecidas ou subavaliadas. Com uma amplitude e um equilíbrio, espera-se, maiores e mais representativos quer do que opções individuais quer do que inquéritos como os de “O Século”, entre nós, em 1986, ou o da efémera revista espanhola FanComics, em 1985, ou o mais recente e polémico número da revista americana Comics Journal (1999)». Ou seja, não se pretende que a Amadora protagonize a escolha oficial das 100 Bandas Desenhadas do Século XX, mas que a Amadora seja o veículo para um levantamento ao estilo do que já foi feito, e que o resultado final seja (aos olhos de quem idealizou este levantamento) mais equilibrado do que o que já foi feito.
Ainda por cima, como Paiva Boléo reconhece e bem evidencia, o exercício tem diversas condicionantes. Para além das limitações do universo conhecido de cada um, a dificuldade da identificação e individualização formal das obras é uma das mais relevantes. O investigador desenvolve estas dificuldades (já para além da delimitação do que é, ou não, banda desenhada): «se em anos mais recentes aumentou o aparecimento de obras autónomas e completas desinseridas de uma série, os heróis ou séries têm sido predominantes na história da BD. E se em muitos casos é possível identificar e seleccionar histórias concretas, sobretudo se existentes em livro, muitos outros há em que é difícil essa individualização, que só poderá ser feita através do destaque de episódios com uma certa unidade interna. Esta situação ainda se torna mais difícil no caso de muitas séries, em geral cómicas, em tiras diárias e/ou em pranchas dominicais, auto-conclusivas ainda que por vezes com algum grau de sequência, que podem durar dezenas de anos e em relação às quais a escolha ou é feita no seu todo ou implica sempre um corte de algum modo artificial e arbitrário (cronológico, recolha em álbum...)».
Paiva Boléo tem o mérito de sugerir diversos critérios para ultrapassar várias condicionantes que levariam a resultados incoerentes. Mas não ultrapassa as questões de base ligadas à relevância do exercício. Porquê? E, subsequentemente, porquê a Amadora?
Em 1996, fui convidado pela Bedeteca de Lisboa a integrar o grupo de reflexão sobre o «estado da nação bedéfila», num comboio Lisboa-Porto que reunia diversos agentes da BD em Portugal. Os resultados da interessante teorização foram publicados em livro pela Bedeteca de Lisboa em 1999.
Em 1998, fui convidado (já não sei por quem) a enviar uma reflexão (julgo que destinada a publicação na revista Quadrado) sobre o conjunto de autores portugueses que representaram o país no Festival de Angoulême, incluindo a elaboração de listagens alternativas. Não sei se o resultado desta interessante teorização foi publicado em livro.
Agora, fui convidado a participar neste inquérito. Tal como nas duas ocasiões anteriores, não vou aceitar o convite. A razão é sempre a mesma. Liga-se à minha ideia do sentido da escrita sobre BD. Como nas ocasiões anteriores, reconhecendo o interesse do exercício, não me identifico com esse interesse. De resto, em 1999 publiquei uma listagem de 100 BDs do Século XX aqui no N.A., podendo verificar-se a diversidade de filosofia.
Resta a perspectiva de um aproveitamento muito positivo que o Festival de Banda Desenhada da Amadora de 2004 poderá fazer dos resultados do inquérito, à semelhança da projecção internacional que o seminário de 2002 possibilitou.

PEDRO MOTA

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