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Viver cultura - Artes |
Dossier "Banda Desenhada" / 2004-02-19 |
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Banda Desenhada
A Devir e o mercado português de BD
A edição de 2003 do Festival Internacional de Banda Desenhada da Amadora (FIBDA) promoveu, pela primeira vez, um dia dedicado aos editores para análise do mercado, balanço do ano editorial, e planos para o futuro imediato. Nesse sentido, no auditório da Escola Intercultural estiveram os responsáveis das editoras Devir, Polvo, Witloof, Booktree, Asa e Meribérica. Não se tratou de um debate, mas de pequenas conferências individuais.
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<18>Banda Desenhada
A conversa com José de Freitas, responsável editorial da Devir, era uma das mais aguardadas. Quer porque a Devir foi uma das editoras que em 2003 apostou num modelo alternativo ao FIBDA, instituindo o BD Fórum, quer porque Freitas é geralmente muito objectivo. Num recente fórum na Internet (no site CentralComics), José de Freitas sintetiza os traços gerais da situação do mercado editorial de banda desenhada em Portugal: «— as vendas estão em queda livre, as tiragens cada vez mais pequenas, e os livros cada vez menos tempo em exposição (e portanto a vender ainda menos, numa espiral descendente); — as livrarias estão a perder capacidade de vender, os hipermercados diminuíram o espaço dedicado à BD, e a FNAC contribuiu para o descalabro generalizado com uma política de devoluções cujo objectivo principal foi o “saneamento” das contas correntes durante as contagens de stock, prejudicando gravemente muitos editores; — e finalmente há editoras a apostar numa oferta crescente para conquistar espaço e “fatia de mercado” mesmo perdendo dinheiro. Tudo isto ao mesmo tempo que vivemos uma das piores crises económicas nos últimos anos, e a pior do ponto de vista do consumo e dos livros em geral.» Estes dados são difíceis de conciliar com o elevadíssimo número de livros de BD publicados em 2003. «No geral, editou-se quase o triplo do ano passado. Obviamente, não apareceram leitores novos por artes mágicas, o que significa que eles tiveram que escolher ainda mais o que compravam. Numa altura em que se calhar também está a diminuir o dinheiro que querem gastar. O resultado é simples: embora se editem muito mais livros, cada um deles individualmente vende menos. Cada livro está mais difícil de se rentabilizar.» Sinais evidentes para recuar. Mas, como diz o editor, «ninguém quer ser o primeiro a diminuir a sua produção. Isso implicaria perda de espaço e visibilidade comparado com a concorrência, o que ninguém quer». É neste sentido que aparece o BDFórum, embora estes sinais se tenham tornado visíveis sobretudo depois do evento de Picoas. O BD Fórum, com cerca de dez mil visitantes e tendo garantido à editora um volume de vendas igual ao dobro do que se faz numa edição do FIBDA (que dura muito mais dias), não pode deixar de ser considerado um sucesso. Ainda assim, não é uma fórmula fácil, exigindo novidades editoriais, muitos autores e capacidade organizativa. A questão dos preços é uma questão central na análise de mercado. Em Portugal, releva que as tiragens são pequenas e levam muito tempo a vender, o que encarece o livro de BD. Freitas reconhece que «isto é um caso típico de pescadinha de rabo na boca: não se baixam os preços porque as vendas e as tiragens são pequenas, mas as vendas são pequenas porque o preço é alto... e é difícil sair deste ciclo vicioso, é uma decisão complicada e um risco alto decidir de repente cortar o preço e aumentar uma tiragem para romper o ciclo.» O ano da Devir também foi marcado por algumas vendas que superaram as expectativas da editora. A Liga dos Cavalheiros Extraordinários, Sin City, Hulk / Wolverine ou A Piada Mortal confirmam que a banda desenhada norte-americana começa a ganhar uma estabilidade no volume de vendas que é importante enquanto tendência. A série de Clássicos da BD que a Devir tem lançado com o jornal «Correio da Manhã» também tem tido um assinalável êxito. Finalmente, o lugar da BD portuguesa foi confirmado com os bons resultados de José Carlos Fernandes. A Devir tem a especificidade de trabalhar com as bancas, para além das livrarias. E nesses pontos de venda específicos tem havido um esforço muito significativo de manter o preço do livro de BD baixo, sempre que possível abaixo dos dez euros. Mas, em termos gerais, sente-se uma necessidade de readequação do mercado que pode passar pelo redimensionamento das tiragens. Os planos imediatos da editora, que tem por muito importantes os indicadores do Natal e as devoluções de Janeiro e Fevereiro, caracterizam-se desde logo por um corte nos custos. Neil Gaiman será um autor em destaque neste ano de 2004, com a edição de, pelo menos 1602 e Sandman, prevendo-se ainda a edição portuguesa de séries como Fables e Powers. De resto, o plano editorial centrar-se-á na continuação de séries, sendo que as novidades estarão mais vocacionadas para o acompanhamento de lançamentos a cinematográficos (como a editora já fez com o Homem-Aranha, Demolidor ou Hulk). PEDRO MOTA
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