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  Banda Desenhada



   

   

   

   

   

   

   

   

   

   

   

   
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Viver cultura - Artes
Banda Desenhada
Sonhos cruzados


Filipe Seems e Lisboa têm sido, para Nuno Artur Silva e António Jorge Gonçalves, um ponto de partida para diversas reflexões em forma de banda desenhada. Assim foi com "Ana" em 1993; assim foi com "A História do Tesouro Perdido" em 1994; assim é agora com "A Tribo dos Sonhos Cruzados", publicado em 2003 por ocasião da 14ª edição do Festival Internacional de Banda Desenhada da Amadora (FIBDA).

O novo álbum de Filipe Seems é tão inovador no panorama da banda desenhada portuguesa quanto "Ana" o foi há 10 anos atrás. Reflectindo a evolução pessoal e profissional dos dois autores, "A Tribo dos Sonhos Cruzados" não começa onde o álbum anterior terminou, nem à forma de ser e contar daquela altura. O regresso de António Jorge Gonçalves à aguarela é uma falsa pista nesse sentido.
Centrando-se desta vez numa Lisboa mais sombria e subterrânea, o álbum aborda a essência da linguagem da banda desenhada: o texto, a imagem, a relação entre o texto e a imagem, e a participação do leitor na construção da história. Em particular evidência está tudo aquilo que a imagem não consegue mostrar e o texto tem dificuldade em descrever (a alma, o sonho, a música, etc.).
Na Lisboa imaginada pelos dois autores, há que ultrapassar as armadilhas do texto e da imagem para se poder iniciar um processo de descoberta. Naturalmente, contar uma história destas através de uma linguagem que assenta justamente na relação entre texto e imagem apresenta um enorme risco. Os autores revelam todo o seu talento na forma como enfrentam esse risco, designadamente quando utilizam a imagem a desempenhar funções do texto (ou a ausência de imagem, como no caso da dupla página em branco) ou utilizam o texto no desempenho de funções de imagem (como no caso das duas páginas que sucedem à dupla página em branco).
Sendo certo que o álbum não é muito acessível ao grande público, não é menos certo que constitui um dos discursos mais arrojados do actual momento da banda desenhada portuguesa.
Na última edição do FIBDA, as Edições Asa promoveram um lançamento com a presença dos dois autores, seguida de uma concorrida sessão de autógrafos. Ainda por ocasião do Festival, foram reeditados os dois primeiros volumes das investigações de Filipe Seems, com novas capas de António Jorge Gonçalves.

PEDRO MOTA

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