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Viver cultura - Artes |
Dossier "Banda Desenhada" / 2004-01-08 |
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Banda Desenhada
Do reconhecimento dos autores
A Época de Ouro da banda desenhada portuguesa liga-se a um período em que não havia álbuns, e a BD era servida em publicações regulares. Com muito pouco reconhecimento e compensação, um grande número de autores deu o seu melhor em histórias com reprodução pobre e barata.
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Lusitas (1943 a 1956) e Fagulha (1957 a 1974) foram duas revistas infantis femininas da Organização Nacional da Mocidade Portuguesa. Maria Alice Andrade Santos e a irmã, Maria Teresa Andrade Santos (Mitza) foram as grandes dinamizadoras deste projecto de trinta anos, que deve ser visto como um só, apesar dos dois títulos das revistas. Em 2003, na Casa-Museu Roque Gameiro, o Festival Internacional de Banda Desenhada da Amadora (FIBDA) promoveu uma exposição em torno do projecto Lusitas / Fagulha, comissariada por Leonardo De Sá. Em evidência estavam desde logo as irmãs Andrade Santos. Não só Maria Alice (directora das duas publicações) e Mitza (que também foi directora de Lusitas), mas também Maria Cristina. Todas colaboraram activamente, como autoras de ilustrações e textos, nas duas publicações. Mas a exposição destacava também todas as outras autoras que, como argumentistas ou desenhadoras, publicaram naquelas revistas e, de uma forma particular, a autora que mais se notabilizou nestas revistas femininas infantis: Bixa. Maria Antónia Roque Gameiro Martins Barata Cabral adoptou o pseudónimo de “Bixa” porque em pequena era muito pouco sociável). Filha de Màmía, nasceu em 1926, em Lisboa. Licenciou-se em Arquitectura na ESBAL, em 1950. Desenhou no Lusitas e na Fagulha. Também colaborou no Jornal da Mocidade Portuguesa Feminina e em Menina e Moça. Em Abril de 1974 termina a Fagulha, e Bixa deixa de desenhar. A muito significativa excepção é a autobiografia que realizou em 1993 para a Tertúlia BD de Lisboa, e que coloriu especialmente para a mostra. O reconhecimento do trabalho de Maria Alice Andrade Santos e de Bixa só chegou em 2003, com a atribuição do Troféu Honra do FIBDA. Finalmente, a exposição destacou os (poucos) homens que trabalharam nas duas publicações: Júlio Gil, Artur Correia, José Manuel Soares e José Garcês. Verdadeiramente, um festival de banda desenhada centrado na Mulher e realizado em Portugal não poderia deixar de contar com a participação de José Garcês. Na obra deste autor, a mulher tem um lugar particular. Quando em 1944 lançou o primeiro número de O Melro, esta sua realização incluía uma página feminina, e secções de culinária, bordados, conselhos às meninas, novela e outras. Já na sua fase profissional, para além da participação em Lusitas/ Fagulha, releva que, em termos gerais as mulheres que apresenta ao leitor são sempre belas, elegantes, sensuais e inteligentes. O elemento feminino raramente é apresentado despido, mas a apresentação da figura e das suas vestes insinua uma componente erótica, e sugere um corpo perfeito. Muito se tem escrito sobre a figura feminina na obra do autor. Em 1986, Garcês foi também o escolhido para realizar uma célebre ilustração de capa para um boletim do Clube Português da Banda Desenhada sobre “A Mulher na Banda Desenhada”. José Garcês fez da melhor maneira a transição dos jornais e revistas para o álbum e tem mantido uma publicação regular. Felizmente, o seu trabalho já tem sido objecto de diversas distinções e homenagens. Em 2003, para além de estar representado no conjunto de autores de Lusitas/ Fagulha (e na colectiva de homenagem a Vasco Granja), o trabalho de José Garcês foi motivo para mais uma mostra individual no âmbito do FIBDA. Representativa dos seus últimos trabalhos e da utilização da BD como instrumento de acção pedagógica, a mostra serviu também para espelhar o reconhecimento das Edições Asa a um autor que completou vinte anos de publicação naquela editora. Durante o Festival, a Asa, na voz de Maria José Pereira, não deixou passar a ocasião de assinalar esse reconhecimento a um dos autores que mais contribuiu para credibilizar o projecto da editora em torno da BD (que lhe valeria um Troféu Honra atribuído pelo FIBDA - o único que até agora distinguiu uma editora). E neste ano histórico, a Asa reuniu os quatro volumes da "História de Portugal em BD" num único tomo, uma edição à boa medida dos "intégrale" do mercado francês. É que a publicação também continua a ser uma importante forma de reconhecimento.
PEDRO MOTA
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