O dicionário com cerca de dois mil nomes (entradas) pretende ser «um veículo de divulgação acessível a todos os cidadãos e aos estudiosos, para além de sistematizar o conhecimento nesta área». Na opinião de João Esteves é lamentável que os vários dicionários, enciclopédias e obras históricas «não façam referência à maioria das mulheres que integram esta obra. Nos manuais existentes são muito poucas as que aparecem e, há casos, em que a sua biografia é muito escassa».
A obra vai abarcar a imprensa feminina dos séculos XIX e XX, instituições, organizações de mulheres e activistas da causa feminina. «Muitas destas mulheres são desconhecidas para a maioria dos portugueses apesar de se dever a elas a conquista de direitos básicos e essenciais para o ser humano. Foi graças ao seu empenhamento reivindicativo nas mais variadas áreas da sociedade que a mulher deixou de estar limitada aos papéis de filha, esposa e mãe».
A médica Carolina Beatriz Ângelo é um dos exemplos apontados pelo coordenador do Dicionário no Feminino. Esta mulher foi a primeira a votar em Portugal em 1911, aproveitando uma lacuna da lei, que não especificava o sexo do «chefe de família», o único com direito a voto. Carolina Beatriz Ângelo, invocou o facto de ser chefe de família devido à sua viuvez. Mas foi caso único, porque a lei foi rapidamente alterada para evitar casos semelhantes.
Maria Veleda é outro caso. Apesar de «ter um dos percursos femininos mais interessantes não é uma mulher muito conhecida da maioria das pessoas. Além de ter inúmeros artigos publicados nos jornais do princípio do século e de ser uma activista, assumiu ser mãe solteira numa sociedade que condenava os filhos fora do casamento».
A omissão das mulheres na história de Portugal é para o coordenador do dicionário uma questão cívica. «Elas estiveram presentes nos momentos e nos movimentos mais importantes, mas os historiadores tendem a esquecer-se delas com frequência. Porém, a história de um país ou de uma época não é feita só com uma parte da população. Tem de haver um equilíbrio».
Colmatar falhas
A elaboração do dicionário resulta de um protocolo entre a Comissão para a Igualdade e para os Direitos da Mulher (CIDM) e a Fundação para a Ciência e Tecnologia e o grupo de trabalho As Faces de Eva, do Instituto Pluridisciplinar de História das Ideias da Universidade Nova de Lisboa.
A obra nasce com o objectivo de colmatar a inexistência de instrumentos metodológicos na área dos estudos sobre a mulher em Portugal e «faz um tratamento exaustivo da imprensa feminina nos séculos XIX e XX. Esta investigação permite concluir que, apesar das mulheres serem socialmente mais reprimidas, elas são mais activas. A produção de artigos femininos é imensa quando comparada com o presente». O número de mulheres nas redacções dos jornais, rádios e televisões é cada vez maior, mas os trabalhos «sobre a igualdade de oportunidades ou sobre a discriminação são muito escassos».
João Esteves classifica o dicionário como sendo uma obra ambiciosa e inovadora. «Fornece um conjunto de informações vitais sobre cada uma das entradas, mas nem todas têm a mesma dimensão ou profundidade. A informação varia consoante o material recolhido e a sua importância». Ao longo das cerca de duas mil entradas existem «nomes com apenas duas linhas de referência porque não excluímos nenhum nome por mais escassa que a informação seja em relação a ele».
A inovação da obra está no facto das entradas serem feitas pelo primeiro nome das mulheres, contrariamente ao que acontece na generalidade dos dicionários, com entradas pelo apelido. «Não podíamos seguir o mesmo método porque não era o mais correcto. O último nome da maioria das mulheres foi adquirido pelo casamento e a sua actividade parecia terminar com este facto. Uma situação que nem sempre corresponde à realidade».
A revisão final do dicionário já foi feita, mas «ainda não há uma data prevista para a sua publicação». Na opinião do seu coordenador «é uma obra muito complicada de ser publicada dada a sua dimensão e a diferença entre o tamanho das entradas que pode suscitar alguma polémica».
Liga é «uma espécie de elo»
O papel das mulheres na primeira república portuguesa e o percurso das organizações femininas nas primeiras décadas do século XX são temas estudados por João Esteves e que estiveram na origem de várias obras publicadas. Entre elas, a Liga Republicana das Mulheres Portuguesas — com o qual conquistou o Prémio «Mulher Investigação 1991», das Organizações Não Governamentais do Conselho Consultivo da CIDM — e As Origens do Sufragismo Português.
A Liga Republicana das Mulheres Portuguesas, criada em 1908, tem um papel «muito importante na história do feminismo em Portugal. Ela é uma espécie de elo de ligação entre os vários movimentos de mulheres desde a monarquia, passando pelas pacifistas, primeira república até ao Estado Novo». Foi um movimento «muito activo e que chegou a ter mais de mil mulheres associadas que lutaram pela aquisição da igualdade de direitos e pelo direito ao voto». Nas primeiras décadas do século XX «foram dados passos fundamentais para transformar a sociedade».
Quase cem anos depois, João Esteves é da opinião que as mulheres «estão mais marginalizadas pelas novas regras da sociedade. Hoje dá-se muita importância à aparência física das mulheres. Além disso, existe uma consciência generalizada que a igualdade é um direito adquirido e posto em prática».
A comunicação social «também afunila muito a questão da igualdade de oportunidades e a discriminação. Geralmente são temas de artigos muito pequenos e escondidos em páginas sem importância». Os jornais e revistas «dão muita importância a textos relacionados com a beleza, mas raramente se vê um artigo ou reportagem sobre as causas da prática do aborto clandestino ou sobre as desigualdades no trabalho».
ANA RODRIGUES